segunda-feira, 23 de junho de 2014

Conto: O outro lado

O outro lado

Tudo bem, dessa vez já sei o que fazer, só preciso me lembrar de algo. Correr preciso correr. Alaai a coruja chama por meu nome dentre as arvores retorcidas, já é a quinta vez que entro nesse bosque, está frio, muito frio, se ao menos eu me lembrasse de colocar meu cardigan.
               O bosque parece sombrio dessa vez de um modo alarmante, continuo correndo me debatendo trombando nos galhos baixos, está tão escuro, a lua não é suficiente dessa vez, a vegetação me sufoca, até que chego a uma área aberta, um campo limpo, parece medieval. A alguns passos de mim fica um lago congelado, por debaixo da finas camadas de gelo vivem sereias, só esperando alguém se aproximar para que elas possam puxar para dentro e devorar, são egocêntricas e perigosas o único jeito de matá-la é arrancando a escama localizada no céu de sua boca, eu não me atreveria a tentar.
               Preciso continuar. Subo a ponte de madeira bem conservada, é o único jeito de atravessar o lago. Na metade do caminho escuto uma voz doce sussurrando o meu nome, é aquela víbora, Gruel a sereia, ignoro e continuo correndo. Quando termino o percurso vejo mais arvores, dessa vez a luminosidade está boa, consigo ver o caminho trilhado quatro vez por mim. Corra! Corra, preciso chegar lá, alguns passos depois Horácio coloca a cabeça pra fora de sua toca, aqueles olhos vermelhos me fascinam, tenho admiração por esse coelho albino. Ele berra que o tempo está acabando.
               Corro mais um pouco, tropeço, caio, sem esperança, então avisto o velho chalé mais a frente, sem perder tempo me levanto tiro a neve da minha roupa, bato três vezes na porta, até que resolvo abri-la por si só, entro, está tão quentinho como meu cobertor felpudo, olho para a lareira, sempre acessa, subo a escada, encontro um pequeno cômodo, uma cama feita para mim, me deito e pouso a cabeça no macio travesseiro, fecho os olhos, então acordo ainda preso na monotonia da vida real, longe de qualquer chalé, longe dos perigos do lago, longe de Horácio, em breve voltarei, só preciso me lembrar de descansar.


Everton Marques Babosa

20/03/14 

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